A pintura íntima e emocional de Anahí Roitman

O Estado de S. Paulo / 25-7-2002 Por Maria Hirszman


A artista argentina Anahí Roitman, que expõe seu trabalho a partir de hoje na Galeria Marta Traba, do Memorial da América Latina, pinta aquilo que gosta: livros, instrumentos musicais, letras, pincéis e quadros dentro de quadros. São as paisagens íntimas, amplas e fechadas, na qual o homem nunca está representado, mas sempre está presente. Ou apenas objetos (pintados ou realmente construídos, seguindo o desejo de explorar as potencialidades da escultura). Mas, independentemente das diferenças temáticas ou formais existentes entre os 60 trabalhos selecionados para sua primeira exposição no Brasil, em todos as obras de Anahí há uma forte carga afetiva, uma necessidade emocional de traduzir em imagens seu universo criativo.
Sua paixão pelo livro, que é o eixo central do trabalho, tem uma dupla raiz.
Anahí confessa-se apaixonada tanto pelo objeto quanto pelo conteúdo. Em muitas de suas telas, principalmente as iniciais, o livro surge como elemento construtivo com o qual se constrói geometricamente o espaço. Nas obras mais recentes, a geometrização do espaço perde lugar para uma composição mais solta, de caráter mais onírico e afetivo.
Até a cor mais azulada, "uma paleta mais baixa, mais tranqüila e mais suave", adotada nas pinturas mais recentes, contribui para criar essa atmosfera menos precisa, que parece saída do mundo dos sonhos. É inevitável fazer associações entre os trabalhos de Anahí e algumas figuras ou escolas importantes da escola da pintura, como o futurismo. Em uma de suas telas, No ateliê IV, vemos inclusive um boneco articulado que remete diretamente à obra de De Chirico. Da mesma maneira, é possível encontrar um parentesco entre trabalhos como Três Instrumentos e a colagem cubista. Segundo a artista, no entanto, essas referências ocorrem sempre de maneira inconsciente e só posteriormente ela se dá conta disso.
Questões temáticas ou formais, todas elas têm relação com aspectos autobiográficos da artista. É a memória afetiva e não a razão que comandam seu trabalho. Da mesma forma que o boneco está presente em suas telas como uma referência a seus primeiros estudos, nos quais utilizou essa figura como modelo, os instrumentos musicais têm lugar garantido em seu trabalho não porque simbolizam a arte erudita que Anahí tantas vezes retrata, mas porque eles estão intimamente ligados à sua vida.
O caráter construtivo de seus trabalhos iniciais decorrem de sua formação como arquiteta. A pintura e a música sempre estiveram presentes em sua vida, já que a mãe é concertista e ela própria estudou violino por dez anos e o pai é um grande colecionador de arte.